Levei um susto. Foi exatamente como se eu tivesse levado uma pancada na cabeça. O atordoamento me fez ficar por uma fração de segundo sem nenhuma reação. Foi como se eu estivesse no limbo. Em seguida, porém meu cérebro reagiu formulado mil perguntas silenciosas: Será que meus direitos políticos foram cassados? Não sou mais brasileira? Sou estrangeira? Não estou mais no Brasil? Ou será que morri e não me contaram? Isso tudo tão rapidamente que a não ser por uma breve hesitação de minha parte e de um gesto um tanto quanto constrangido do outro convidado, ninguém teria percebido.
É pela sua idade esclareceu o entrevistado, que pensava estar sendo gentil.
Só então lembrei que há poucos dias havia feito aniversário e esclareci: Eu ainda estou longe dos setenta anos (nem tãaao longe assim pensei com meus botões), e ele mais uma vez explicou que após os sessenta anos o voto não era mais obrigatório. Graças a Deus pensei aliviada, então não morri. A lei é que mudou.
Continuamos o programa e quando terminou vim embora. A dúvida, porém ficou me agulhando durante todo o trajeto entre a Maria Rosa e a Calábria, onde fui almoçar. Lá me encontrei com a amiga Marilúcia. A comida gostosa e a conversa melhor ainda, me fizeram esquecer do assunto. Fui para casa e durante a tarde toda, como se fosse uma daquelas dorzinhas de cabeça enjoadas, o assunto voto voltava ao meu pensamento insistentemente, mas eu o afastava com rapidez.
A noite caiu com manto de estrelas cobrindo a imensidão, ai meu Deus esta minha veia poética... e não agüentei mais, fui consultar o doutor Google. Abri o lep-top e digitei: Voto obrigatório no Brasil, esperei um instant e vi que poderia escolher várias fontes de pesquisa.Abri uma, depois outra e várias outras mais, e a medida que ia lendo, fui ficando cada vez mais aliviada.
Eu, eu mesma, que sempre falei aos quatro ventos, que defendi com todo calor e entusiasmo a desobrigação do voto, a liberdade de só votar quem assim o quisesse e até quando quisesse, me senti tremendamente aliviada por ainda ser obrigada a votar, pois a lei só vale após os setenta anos.
Pois então, estou viva, meu voto é obrigatório, sou cidadã brasileira graças a Deus. Tenho de votar nas próximas eleições e o que é melhor ainda, vou votar em quem eu quiser, por livre escolha. Certamente não votarei no meu entrevistado, primeiro porque demonstrou não conhecer as leis eleitorais, segundo pela falta de tato, imagine falar da minha idade, coisa mais deselegante.
Rose Kern
Curitibanos, abril de 2009.

