O rio Uruguai que guardo em minhas lembranças fazia a cidade em que cresci parecer uma ilha quando vista da margem catarinense.Era um rio respeitado e amado pelos moradores da cidade que orgulhosamente diziam que era ali que ele nascia. Esse assunto controverso só começou a gerar dúvidas quando uma publicação apareceu no colégio, dando conta de que o rio tinha outra nascente.Fui questionar minha avó Nobinha que para mim era a pessoa que tudo sabia daquelas paragens para onde viera, junto com meu avó Domingos, no final do século dezenove.Minha avó, ouviu a minha pergunta pacientemente e sem alterar a voz respondeu: O rio Uruguai, menina, nasce ali abaixo da ponte de ferro onde se juntam o rio Pelotas e o rio do Peixe.Se o teu livro diz outra coisa, ele está errado. Se ela afirmava isso, para mim não havia mais dúvida nenhuma, era ali que ele nascia e ponto final. Que me perdoem os que ainda hoje pensam o contrário.
O rio Uruguai, com seu nome guarani, que em português quer dizer Rio dos Pássaros Pintados, marcou minha infância e adolescência. Engraçado dizer minha adolescência, naquela época ninguém usava ainda esta palavra para definir o espaço de tempo que fica entre a infância e a idade adulta. Passávamos direto de crianças a gente grande, mas isso não vem ao caso. Não quero falar de pessoas. Quero recordar de um rio. Um rio de águas azuis margeado por pequenas casas com goiabeiras nos quintais, por onde passávamos para nadar nas tardes de muito calor. Durante o dia, podíamos ver os peixes em seus volteios pelas águas transparentes. Ao entardecer, lembro dele com suas águas límpidas refletindo cores brilhantes em memoráveis pores do Sol. Nas noites de lua cheia rio e lua proporcionavam o espetáculo. As pedras, que no verão apareciam no meio da água, eram usadas pelos banhistas para pescar lambaris, ou tirar fotos em poses ingênuas gravadas nos retratos em branco e preto. Os mais afoitos arriscavam um mergulho de “bico”, que na verdade era na maioria das vezes um tremendo barrigaço.
Quantas vezes chorei pelo direito de ir nadar no rio Uruguai... Quantas vezes também, chorei por amigos que perderam a vida em suas águas. Águas violentas que em época de enchente pediam e mereciam respeito. Ficávamos lá em cima na barranca do rio, perto dos trilhos da estrada de ferro, olhando árvores e às vezes casas inteiras sendo levadas como se fossem brinquedos das águas que nos mostravam o poder e a força da natureza.
Atravessar a ponte de ferro a pé contando os dormentes era a grande aventura, eu porém só pude realizá-la quando tinha uns treze anos, numa tarde de domingo, em companhia de amigas “corajosas”. Ir até a outra margem do rio Uruguai pela balsa também se constituía um grande feito, mas passear de bote - assim chamávamos as canoas - era um sonho dourado que realizei poucas vezes. Havia mais, algo que desejei muito fazer e nunca pude: colocar um pé no Rio Grande do Sul e outro em Santa Catarina, no estreito do rio Uruguai, onde na época de estiagem, o rio se tornava um canal de águas espumantes e ameaçadoras. Poucas pessoas tiveram a coragem de realizar tal proeza, e hoje isso se tornou um sonho impossível, pois tenho notícias de que as barragens transformaram o indomável rio Uruguai num grande lago, e o estreito ficou nas suas profundezas. Eu, no entanto, quero guardar o rio Uruguai nas minhas lembranças do jeito que ele era, manso no verão, turbulento no inverno, uma entidade que merecia respeito em todas as estações.
Rose Kern
julho de 2011.

